Em Lugar Nenhum

Era uma tarde como outra qualquer em Lugar Nenhum. No palácio, o rei jogava ludo e tomava licor de tamarindo com o monarca de Outro Lugar. Este último, entre os dados, lançou também um assunto indigesto:

– Ouvi dizer que os ludistas estão ganhando força em seu reino.

– Estes malditos quebradores de máquina. Eu não entendo. Finalmente atingimos um sistema perfeito; o ápice da evolução tecnológica. As máquinas produzem tudo: o que comemos, bebemos, vestimos. Doenças são diagnosticadas com 100% de precisão e tratadas com praticamente a mesma eficácia. E nós nem precisamos mandar. Até a manutenção das máquinas é feita por elas. Incontáveis anos de trabalho para chegar até aqui. E o que eles querem? Mais trabalho!

– Desculpe-me, não quis encher vossa cabeça com preocupações.

– Tudo bem, não vamos mais falar sobre isso. Vossa Excelência veio aqui a ócio.

– Sim, e em Lugar Nenhum o ócio basta.

Com o licor, foi-se também a tarde. O palácio contava agora apenas com um rei. E um peão.

– Excelência, as notícias não são nada boas. Os ludistas invadiram mais campos, estações e complexos. Não seria o caso de recorrer ao Exército?

– Não. Há muito tempo que as nossas forças armadas não podem mais ser chamadas de forças. Em nosso sistema, todos gozam de suas benesses. E é assim que ele mesmo se protege e se perpetua. A resistência encontra resistência não em braços guerreiros, mas em braços cruzados.

– Entendo. Porém, ainda não cheguei ao ato final da tragédia, Excelência. Dizem que o líder dos insurgentes virá matá-lo esta noite.

– Sabe o que eu acho? Estas duas horas diárias de trabalho têm exaurido você. Tire a noite e uns dias de folga.

O rei estava só. Ou assim ele pensava.

– Rei de Lugar Nenhum! – brandiu a voz e a espada o líder dos ludistas.

– É verdade. Você está aqui para matar-me. – respondeu com a espada debilmente em punho.

– Não. Vossa Sonolência ainda tem voz com o povo, o que me impede de cortar sua garganta. – disse o líder, golpeando.

– Então, o que está fazendo? – defendeu-se o monarca, impressionado com o próprio reflexo.

– Estou aqui para dar um recado. Nós quebramos a maior parte das suas máquinas, sem chance de manutenção. E vamos continuar quebrando.

– De nada vai adiantar… O povo… é feliz com o sistema. – o rei respirava com dificuldade, enquanto o embate continuava entrecortado por falas e espadas.

– O fato de não se revoltarem não significa que sejam felizes. Hoje, mesmo as atividades voltadas para o simples regozijo tendem à inatividade. Os artistas impressionam mais pela morosidade do que por suas obras. O esporte não é mais um espetáculo. Até quando Vossa Negligência acredita que viveremos assim? O número de suicídios indica que não por muito tempo. O povo tem sede de prazeres que nem mesmo conhece. E é isso que vai corroer o sistema, não os ludistas.

– Vocês podem até seduzir alguns… , mas quando essa minoria perceber que terá de alimentar uma maioria,… como conseguirão mais adeptos à causa ou impedir sua dispersão?

– Vossa Indolência conseguirá. Não há tempo para construir mais máquinas. E quando a maioria, confusa e com fome, se revoltar, é o rei que os guiará de volta ao trabalho. Se Vossa Dormência resistir, ótimo, ao menos terá saído da letargia em que se encontra. É por isso que não estou aqui para matá-lo. Estou aqui para que se sinta vivo.

O líder, então, baixou a arma. O outro manteve a sua no ar por mais tempo, tremendo, pulsando. A manhã se aproximava de Lugar Nenhum. Mas, pela primeira vez, não era uma manhã qualquer.

Natália Kaori Sato

Redatora, escorpiana, faz contos em vez de origamis nas horas vagas.

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