Body Drama

Um dia eu acordei da ausência de mim mesma. Era tarde de domingo, havia um gelo percorrendo a minha espinha, preenchendo meu estômago e paralisando o meu corpo, enquanto uma garra apertava o meu pescoço, de um homem montado sobre os meus quadris: era a morte.

O silêncio que se formou ao nosso redor era onipresente, onipotente sobre a minha própria vida. Ao mesmo tempo era doce: o sol entrava pelas frestas da janela, os segundos passavam devagar, deitados no espesso balé da poeira sob a luz – quase como um filme que nos envolve completamente; um filme do qual nos lembraríamos, cujas cenas ocupariam nossos sonhos. Sem o filme da minha vida inteira passando pelos meus olhos, sem remorsos, súplicas ou pedidos de perdão – nada disso. Apenas silêncio e aceitação.

E a garra em meu pescoço matou em mim a vontade de resistir, mas ao mesmo tempo puxou pelas pernas, de dentro das minhas entranhas, o rebento que me gerou. Ao matar a minha voz, me atirou no ventre escuro do silêncio, de onde, por sua vez, nasceu uma nova voz, livre de vocabulário alheio – apenas choro, grito, afirmação da vida em pulmões limpos.

E desde então, tenho estado no lento e desconfortável processo de nascer – quebrando a casca que me separa do mundo, pedaço por pedaço, e tentando me acostumar com a luz que me ofusca desde fora.

A ciência da morte é a ciência da vida: só se vem para o mundo quando se aceita o medo de não ser.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s