no batente da janela (excerto)

em

“… no fundo nunca quis ser homem, por mais que anulasse meus cabelos, curvas e modos de menina e de mulher. Homens sempre me pareceram criaturas muito fáceis de ludibriar pelas aparências, sempre abrindo mão de relações significativas por prazeres fugazes – trocam a morena misteriosa pela loira alegre e exuberante.

eu, morena e, de tão misteriosa, perdida em meu próprio labirinto, desprezei com afinco toda essa superficialidade, mas na minha confusão não suspeitei que a tal da loira exuberante derramasse leite e mel de suas tetas deliciosas e que esse prazer é a bebida sagrada na qual os homens, os outros, buscam sentido para suas vidas breves, tais como zangões cegos e apaixonados.

não suspeitei que o prazer por si só tivesse um sentido, nem que a lógica do dever antes da obrigação estivesse errada em sua essência, já que o dever desprovido de desejo é vazio e interminável, tarefa de sísifo que consome a vida humana.

e que o meu mistério, meu labirinto, no fundo, é a negação da minha própria inveja, a negação da alegria – a frustração não processada, as voltas intermináveis na tentativa de transformação da amargura que é cozida em fogo baixo e não se transforma nunca, porque antes de se transformar precisa ser confrontada com o real e por consequência sofrer uma piora, piora que sempre pensei ser incapaz de suportar.

e ao desprezar quem se ludibria por prazeres fugazes, me iludi ainda mais barato: repudiando os prazeres e a própria ideia de que eu também posso, e talvez até queira, mergulhar na indulgência de me ausentar por um instante da angústia de viver num mundo absurdo e falho por natureza.

portanto hoje talvez eu dê um passo, ainda que insignificante, ainda que seja mais uma decisão interna que mal tenha o poder de mover as minhas pernas de fato: abraçar o falho, o absurdo, a ilusão, a inveja, as alegrias baratas, o dever vazio, as tetas molhadas, o mel, os modos de menina, os homens. amar como acolhimento do absurdo e como gesto megalômano de tentar me sentir potente mesmo perante isso tudo…”

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