os deuses obscuros

esses são os deuses que plantaram a fúria nas nossas entranhas e não lhe deram um nome. fúria é um nome deveras aleatório para descrever esse impulso que nos empurra contra a parede da outra ponta da vida.

são esses os deuses invisíveis aos quais ofertamos o fruto do nosso trabalho. aos quais depositamos nossas esperanças de completude e acolhimento, e que nos sequestram esta mesma esperança no fim de cada dia. leões de chácara que protegem um templo abandonado. esses são os fantasmas guardiões de toda fome de consumo, de amor-voraz, de esgotamento. são os deuses da metrópole.

são esses os deuses da discórdia: por seu brilho distante cavamos cada vez mais fundo o buraco em nosso próprio peito, e não entendemos a dor que daí decorre. é o outro, a culpa deve ser do outro. este imbecil que não consegue articular uma frase. aquele filho da puta que me largou aqui sozinha. aquela anta que não consegue se animar pra nada. este emprego de merda. este filho, que já foi tão meu, mas que agora desconheço. crianças errantes atropelando-se umas às outras, batendo-se umas nas outras.

porque ao bater seguem a um propósito: a satisfação nula de um deus irado, a quem devemos uma dívida que não pode jamais ser paga. um saldo negativo virtual e perene.

a heresia é o único caminho viável de resgate do corpo, a única alternativa à violência: encarar o penhasco de frente e abrir mão de ofertar a vida para saciá-lo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s