a maré

estamos à deriva.
sempre estivemos na verdade.
alguns em canoas pequenas
outros em cruzeiros majestosos.
mas à deriva.
estamos agora numa jangada
despedaçável. sempre estivemos?
nos agarramos a cada tábua,
a cada vento, a cada onda.
às vezes a maré enche
o vento sopra firme
e tudo parece certo.
às vezes não.
quase tocamos o leito do oceano.
viramos o barco, engolimos água.
quanto mar conseguimos engolir
quanto mar conseguimos chorar
não sabemos ainda.
mas não paramos de nos espantar
com o quanto de mar cabe em nós.

nem de nos espantar com as surpresas:
estamos de saco cheio da jangada, do mar, do vento, da onda, da maré que sobe, que desce, do sol escaldante, da tempestade, da porra toda.
“pointless, pointless, pointless”. deriva. sem um ponto de estabilidade.
mas às vezes aparece uma gaivota.
às vezes é um pinguim que vem nadando de barriga pra cima.
e a gente ri. tem o plâncton também, que é bonito, e que brilha pra gente só se for de graça – nunca se for pedido, muito menos planejado.
às vezes, bem às vezes, também tem algum descanso.
e às vezes a gente encontra outro navegante,
e trocamos as histórias malucas da última tempestade.
as histórias malucas da própria deriva.
refinar a arte de derivar-se.

aterrissar às vezes é mais morrer do que se achar.
e derivar pode ser mesmo um outro jeito de dar-se à luz.

___________________

para Jeanne Callegari

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s